
Likes e Dislikes: Redes Sociais e Cognição
As redes sociais são uma realidade para todos nós. Telas e celulares têm sido associados a problemas na pediatria. Dúvidas ainda existem sobre seus riscos e benefícios na população geriátrica.
Autor: Carlos Antonio Moura
Data: 01 junho de 2026
Mulher, 71 anos, professora universitária aposentada, encaminhada pelo filho para avaliação cognitiva. Queixa de esquecimentos frequentes nos últimos seis meses: perde objetos dentro de casa, repete perguntas na mesma conversa e teve dificuldade para lembrar o nome de colega com quem conviveu por mais de vinte anos. Nega outros sintomas. Sem comorbidades relevantes, sem uso de psicotrópicos. MEEM 26/30. Ao aprofundar a história social, identifica-se que a paciente vive sozinha desde o falecimento do marido, há dois anos. O filho relata que esteve com um neurologista que orientou a paciente a usar rede social de forma moderada como estratégia terapêutica para facilitar a comunicação e interação dela com familiares e filhos de forma mais frequente. A paciente nega se sentir solitária, apesar de sair pouco de casa e não gostar de muitas visitas.
Supondo que você é o médico diante deste caso, qual sua recomendação quanto ao uso de internet/rede social?
DEMÊNCIA: CLASSIFICAÇÃO, DOMÍNIOS E O QUE DIZEM OS GUIDELINES
A demência não é um diagnóstico unitário, mas o desfecho clínico comum de um conjunto heterogêneo de doenças neurodegenerativas e vasculares que afetam progressivamente as funções cognitivas e a capacidade funcional. O DSM-5 estabeleceu uma nomenclatura dimensional que substituiu o termo genérico “demência” por dois constructos hierarquizados: o Transtorno Neurocognitivo Leve (TNCL) e o Transtorno Neurocognitivo Maior (TNCM).
O TNCL – anteriormente denominado Comprometimento Cognitivo Leve (CCL) – caracteriza-se por declínio modesto e verificável em um ou mais domínios cognitivos, documentado por relato do paciente, de informante próximo ou por avaliação clínica estruturada, sem comprometimento da independência nas atividades de vida diária. O paciente pode necessitar de estratégias compensatórias ou maior esforço para manter o desempenho habitual, mas preserva sua autonomia funcional. Estima-se que o TNCL progrida para TNCM em aproximadamente 10 a 15% dos casos ao ano, embora uma parcela significativa permaneça estável ou reverta ao funcionamento basal.
O TNCM – a demência propriamente dita – implica declínio substancial em relação ao nível anterior de funcionamento, com comprometimento cognitivo significativo documentado objetivamente e perda da independência nas atividades instrumentais ou básicas de vida diária. A etiologia mais prevalente é a Doença de Alzheimer (DA), responsável por 60 a 80% dos casos, caracterizada por início insidioso e progressão gradual com acometimento preferencial da memória episódica e da linguagem. A demência vascular apresenta curso escalonado e está intimamente associada a fatores de risco cardiovascular. A demência por corpos de Lewy distingue-se pela tríade de flutuações cognitivas, alucinações visuais e parkinsonismo. A demência frontotemporal acomete preferencialmente os lobos frontais e temporais, manifestando-se por alterações comportamentais, de personalidade e de linguagem que frequentemente precedem o comprometimento da memória episódica e ocorrem em faixa etária mais jovem.
O relatório de 2024 da Comissão Lancet sobre prevenção de demência – a referência epidemiológica e de saúde pública mais abrangente sobre o tema – identificou 14 fatores de risco modificáveis que, em conjunto, podem explicar até 45% dos casos de demência em todo o mundo. Entre eles, o isolamento social ocupa posição de destaque, ao lado de baixa escolaridade, hipertensão, obesidade, tabagismo, inatividade física, diabetes, perda auditiva não tratada, depressão, consumo excessivo de álcool, traumatismo cranioencefálico, poluição do ar e, nas atualizações mais recentes, perda visual não tratada e hipercolesterolemia. A inclusão do isolamento social nesse mapa de risco não é trivial: ela situa o problema da conectividade humana – e, por extensão, da conectividade digital – no centro do debate sobre prevenção cognitiva.
Os domínios da cognição
O DSM-5 organiza a cognição em seis domínios principais: atenção complexa, função executiva, aprendizagem e memória, linguagem, habilidades perceptivo-motoras e cognição social. O comprometimento pode ser restrito a um domínio ou abranger múltiplos, e o perfil de acometimento orienta o diagnóstico etiológico e o prognóstico funcional. A memória episódica – capacidade de adquirir, consolidar e recuperar informações ligadas a contextos específicos de tempo e lugar – ocupa posição central nesse mapa por razões que vão além de sua prevalência como queixa: é o domínio mais precocemente comprometido na DA, o mais sensível a perturbações do sono e do humor, e o mais relevante para a vida cotidiana. Não é coincidência que a maioria dos estudos sobre fatores de risco e proteção cognitiva tomem a memória como desfecho primário. É exatamente nesse ponto que os três estudos que compõem esta discussão se encontram.
TRÊS ESTUDOS, UM PROBLEMA
I. Internet e risco de demência – Cho, Betensky e Chang (2023)
Publicado no Journal of the American Geriatrics Society, este estudo de coorte prospectiva acompanhou 18.154 adultos norte-americanos com idades entre 50 e 64,9 anos por até 17,1 anos, utilizando dados do Health and Retirement Study (HRS). O uso regular de internet no baseline foi associado a aproximadamente metade do risco de desenvolver demência em comparação ao não uso (CHR = 0,57; IC 95%: 0,46–0,71). O resultado se manteve após ajuste para autosseleção cognitiva e após exclusão de participantes com sinais de declínio basal. Cada período adicional de uso regular ao longo do seguimento foi associado a redução de mais 20% no risco. A análise das horas diárias sugeriu relação em U: o menor risco concentrou-se em usuários de 0,1 a 2 horas por dia, com tendência de aumento nos extremos – tanto nos não usuários quanto naqueles com mais de 6 horas diárias. Os resultados não variaram por escolaridade, raça ou sexo.
II. Redes sociais e falhas cotidianas de memória – Sharifian e Zahodne (2020)
Com desenho diferente, este estudo utilizou um diário diário de 8 dias aplicado a 782 adultos de 25 a 75 anos da coorte MIDUS Refresher. Por meio de modelos multinível, demonstrou que dias com maior uso de redes sociais foram associados a mais falhas de memória cotidiana no mesmo dia e no dia seguinte, controladas as falhas do dia anterior. O efeito foi uniforme ao longo de toda a faixa etária. A análise de causalidade reversa foi explicitamente testada e descartada: falhas de memória não predizem uso de redes sociais no dia seguinte. Os mecanismos propostos envolvem três vias: offloading cognitivo (a rede social como memória externa que dispensa a codificação interna), desengajamento atencional (competição por recursos atencionais durante experiências do mundo real) e exposição a conteúdo estressante (fluxo de notícias negativas e comparação social).
III. Impacto neurocognitivo via EEG – Satani et al. (2025)
Este estudo avaliou por EEG de 24 canais a atividade cerebral de 100 adultos saudáveis durante 30 minutos de uso de redes sociais. O engajamento ativo suprimiu ondas Alfa – marcador de estado de repouso atencional – e elevou ondas Beta e Gamma, padrão associado à carga cognitiva, ao processamento emocional e à ativação de circuitos de recompensa dopaminérgicos análogos aos observados em comportamentos aditivos. A elevação de Beta e Gamma persistiu após o término da sessão, especialmente com conteúdo político e noticioso, retardando a recuperação do estado de repouso neural por cerca de 15 minutos. O uso prolongado elevou ondas Delta, biomarcador de fadiga cognitiva. O estudo apresenta limitações metodológicas relevantes – amostra pequena, ambiente laboratorial, ausência de grupo controle formal – e deve ser interpretado com cautela. Ainda assim, oferece substrato neurológico plausível para os achados comportamentais dos dois estudos anteriores.
O TRIÂNGULO DE INTERSEÇÃO
Tomados isoladamente, cada um desses estudos responde a uma pergunta restrita. Cho et al. avaliam o uso de internet como variável de longo prazo, sem distinguir o que se faz online. Sharifian e Zahodne medem o efeito das redes sociais sobre a memória cotidiana, sem acompanhamento prolongado. Satani et al. capturam a atividade cerebral durante o uso, mas em contexto artificial e por um breve período. Nenhum dos três, sozinho, é suficiente. Juntos, porém, constroem uma narrativa em camadas que vai do comportamento ao neurônio e do dia a dia à trajetória cognitiva.
A camada de superfície, fornecida por Sharifian e Zahodne, é a mais imediata e clinicamente acionável: nos dias em que um adulto usa mais redes sociais, ele erra mais a memória – dado replicado em quase 6.000 dias-pessoa. A camada intermediária, fornecida por Satani et al., oferece hipótese mecanística: o uso de redes sociais produz estado neural de excitação sustentada que não se resolve com o fechamento do aplicativo. O cérebro continua processando o que viu – especialmente com conteúdo emocionalmente carregado – e esse processamento residual compete com a codificação de novas informações. A camada profunda, fornecida por Cho et al., sugere que o que se faz com o cérebro repetidamente, ao longo de anos, importa para o risco de demência.
A questão que o triângulo coloca – e que nenhum dos três estudos resolve – é: em que ponto o uso digital deixa de ser estimulação cognitiva e passa a ser erosão cognitiva? E mais especificamente: redes sociais e internet são a mesma coisa nessa equação?
O PARADOXO DA CURVA EM “U” E O PROBLEMA DO VÍCIO
O achado de Cho et al. de uma relação em U entre horas diárias de uso de internet e risco de demência presta-se rapidamente a uma conclusão tranquilizadora: use com moderação e tudo bem. Pouco uso é bom; muito uso é ruim. Encontre o equilíbrio (como muitos sugerem em quase tudo na vida). A pergunta é se há, por exemplo, equilíbrio prescrito para o uso de “recreativo” de cocaína. Por isso tenho fortes ressalvas a esse discurso “equilibrista” que é intelectualmente sedutor e ao mesmo tempo perigoso.
O problema não está nos números da curva em U, mas na natureza do produto que se propõe usar com moderação. As plataformas de redes sociais são desenhadas – deliberada e sistematicamente – para maximizar o tempo de engajamento. O uso recreativo delas já é, por si só, um potencializador ao vício. Scroll infinito, notificações intermitentes, likes e comentários como recompensas variáveis, autoplay de vídeos: cada um desses recursos explora circuitos dopaminérgicos de antecipação de recompensa que o próprio estudo de Satani et al. detectou via EEG. O padrão neurológico observado – elevação de Gamma durante momentos de alta recompensa, supressão de Alfa pós-engajamento, persistência de Beta após o uso – é funcionalmente análogo ao observado em estudos de comportamentos aditivos.
Diante disso, a curva em U ganha uma leitura diferente. Não se trata de dose-resposta. Trata-se de um produto com alto potencial de uso compulsivo, no qual a premissa de uso moderado carrega uma contradição interna: o próprio mecanismo de ação da plataforma trabalha contra a moderação. A analogia é desconfortável, mas pertinente: poderíamos recomendar o uso moderado de uma substância analgésica que apresentasse, por sua composição farmacológica, alta probabilidade de dependência? O argumento de que pequenas doses têm benefício clínico não neutraliza o risco sistêmico de progressão para uso problemático – especialmente em populações vulneráveis.
Quem garante que o usuário que hoje usa 90 minutos por dia permanecerá em 90 minutos por dia? Os dados de Sharifian e Zahodne já mostram que mesmo o uso médio da amostra – 24 minutos diários, portanto dentro da faixa supostamente segura – foi suficiente para produzir efeito mensurável sobre a memória cotidiana. O ponto de corte entre o U protetor e o U prejudicial pode ser mais estreito do que qualquer recomendação clínica consegue precisar. E a natureza viciante da plataforma torna a manutenção desse ponto de corte uma tarefa improvável para a maioria dos usuários.
O ISOLAMENTO QUE A INTERNET NÃO VÊ – E ÀS VEZES CRIA
Há um pressuposto silencioso no estudo de Cho et al. que merece ser nomeado: a associação entre uso regular de internet e menor risco de demência foi construída em uma amostra acompanhada entre 2002 e 2016, período em que o uso predominante da internet incluía e-mail, pesquisa de informação e compras online – formas de engajamento digital que guardam pouca semelhança com o padrão atual dominado por feeds algorítmicos, vídeos curtos e notificações contínuas. A variável que o estudo chama de uso regular de internet em 2002 não é a mesma que essa variável representaria em 2026.
Mais relevante ainda: o mecanismo protetor proposto pelos autores – e consistente com a evidência mais ampla revisada pela Comissão Lancet² – envolve estimulação cognitiva ativa, manutenção de vínculos sociais e redução do isolamento. O estudo, porém, não avalia se o uso de internet foi capaz de suplementar ou substituir o engajamento social presencial. E aqui reside a tensão conceitual central que os dados não resolvem: a internet pode tanto vencer o isolamento quanto produzi-lo.
A evidência sobre o que protege a cognição no envelhecimento aponta, de forma consistente, para o engajamento real. O isolamento social está entre os 14 fatores de risco modificáveis identificados pela Comissão Lancet²; a conectividade digital, por si só, não o substitui. Se o paciente já está em isolamento por algum motivo – pandemia, “síndrome do ninho vazio” etc. – pode, de fato, ser útil o uso da rede social. Seria, nesse caso, como o velho ditado: para quem está se afogando jacaré é tronco. Leia-se: supor que o jacaré é tronco não muda o fato de que ele é um jacaré!
O engajamento social presencial envolve demandas cognitivas que a interface digital não replica: leitura de linguagem não verbal, adaptação em tempo real a contextos sociais imprevisíveis, regulação emocional interpessoal, atenção sustentada sem a opção de pausar ou rolar para baixo. Uma conversa de uma hora com um interlocutor real exige e exercita mais o cérebro do que uma hora de navegação em redes sociais – independentemente do volume de conteúdo processado. A atenção, a vontade e a motivação que a experiência do real ativa não encontra equivalente funcional no ambiente algorítmico.
Há ainda o dado de Sharifian e Zahodne sobre exposição a conteúdo estressante como mecanismo de comprometimento da memória. Redes sociais são, estruturalmente, ambientes de amplificação de conteúdo negativo e polarizador – não por acidente, mas porque esse tipo de conteúdo gera mais engajamento. O usuário que acessa redes sociais para manter contato social inevitavelmente se expõe a um fluxo de informações que inclui notícias perturbadoras, conflitos interpessoais e comparação social. Por vezes, problemas no interior do Paquistão perturbam o sono de uma pessoa num simple cômodo no interior da Bahia. Esse é o custo oculto da conectividade digital que nenhum estudo sobre benefícios cognitivos da internet consegue descontar inteiramente.
CONCLUSÃO
Os três estudos aqui discutidos não convergem para uma mensagem simples, e seria desonesto reduzi-los a uma. Há evidência de que o engajamento digital regular pode proteger contra demência em perspectiva de longo prazo, além de ser uma forma de libertação e democratização da informação – doa a quem doer. Mas, reconheçamos haver indícios de que o uso de redes sociais, no cotidiano imediato, compromete a memória. Há documentação neurofisiológica de que o padrão de ativação cerebral produzido por esse uso se assemelha ao observado em comportamentos de recompensa compulsiva.
O que a soma deles permite afirmar, com razoável grau de confiança, é que a questão clínica relevante não é se o paciente usa ou não usa internet. É o que ele faz quando está online, por quanto tempo – e, sobretudo, o que ele deixa de fazer enquanto está.
Nenhum estudo precisará confirmar o que a experiência clínica e o bom senso já indicam: a realidade é o melhor estimulante cognitivo que existe. Sair, conversar, praticar esporte ao ar livre, cozinhar para amigos e familiares, plantar, errar no mundo real, sentir o peso do imprevisto, ter que improvisar uma resposta para alguém que está de frente – essas experiências ativam atenção, vontade e motivação de formas que nenhum algoritmo consegue replicar. A internet pode encurtar distâncias, mas nenhuma tela substitui o que acontece quando dois córtices pré-frontais estão no mesmo ambiente físico, negociando a realidade em tempo real.
A cura para o isolamento não está na conexão virtual, mas no básico: a presença.
E AGORA?
Mulher, 71 anos, professora universitária aposentada, encaminhada pelo filho para avaliação cognitiva. Queixa de esquecimentos frequentes nos últimos seis meses: perde objetos dentro de casa, repete perguntas na mesma conversa e teve dificuldade para lembrar o nome de colega com quem conviveu por mais de vinte anos. Nega outros sintomas. Sem comorbidades relevantes, sem uso de psicotrópicos. MEEM 26/30. Ao aprofundar a história social, identifica-se que a paciente vive sozinha desde o falecimento do marido, há dois anos. O filho relata que esteve com um neurologista que orientou a paciente a usar rede social de forma moderada como estratégia terapêutica para facilitar a comunicação e interação dela com familiares e filhos de forma mais frequente. A paciente nega se sentir solitária, apesar de sair pouco de casa e não gostar de muitas visitas.
Supondo que você é o médico diante deste caso, qual sua recomendação quanto ao uso de internet/rede social?
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