
Inteligência Artificial, Amor e Razão: o Fio da Navalha na Medicina
A inteligência artificial, como o MAI-DxO, alcança altas taxas de acurácia no diagnóstico, levantando a possibilidade de substituição de médicos. Contudo, para além da empatia, o ato de experienciar a realidade é um ato de amor. Na prática, muda alguma coisa?
Autor: Carlos Antonio Moura
Data: 04 de julho de 2025
Você acha que a IA vai substituir o médico?
Tenho 40 anos. Sou médico, professor, e há mais de uma década dedico boa parte da minha vida ao ensino do raciocínio clínico na beira do leito. Raciocínio esse que não se resume a operações mentais ou simples associações e desassociações, mas, sobretudo, se sustenta na vontade de inteligir a verdade. Acontece que ao longo do século XX e início do século XXI assistimos à “numerificação” da inteligência que confunde inteligir com bytes e nada mais natural nesse reducionismo do que supor que a cabeça humana é um mero computador tosco pronto a ser substituído por fórmulas rebuscadas, como discutiu Paul Meehl em seu artigo When Shall We Use Our Heads Instead of the Formula? (Journal of Counseling Psychology, 1957, 4, 268–273).
Recentemente, a Microsoft anunciou sua nova inteligência artificial (IA), o “Microsoft AI Diagnostic Orchestrator” (MAI‑DxO). Nem vou adentrar na história por trás da origem do termo “Inteligência Artificial”, ocorrida lá por volta de 1956, pois a intenção aqui é ser menos acadêmico e mais reflexivo.
Alega-se que o MAI-DxO obteve 85,5 % de acurácia em 304 casos complexos do New England Journal of Medicine, contra apenas 20 % dos médicos participantes sob condições restritas. Levanta-se agora uma questão: a substituição em larga escala dos médicos é questão de tempo?
Os pueris argumentam que “a máquina não tem empatia” e concluem que a IA substituiria – merecidamente – apenas os médicos “grosseiros”. Que o médico empático não se engane: o desejo do paciente por empatia não suplanta o desejo de ver seu problema mais bem entendido – e resolvível. Se a IA entregar isso melhor, a percepção de que a empatia é essencial sofre o risco de degenerar a ponto de o paciente supor que aquilo que ele pensava ser empatia era, não raramente, artimanha de “charlatão” incompetente. Como costumo dizer: maquiagens servem mais para esconder defeitos do que para enaltecer belezas!
Estou apenas pontuando que o que nos diferencia da IA ainda é “maior” do que a “mera empatia” que, se usada como recurso para esse debate de “médico x IA”, corre o risco de ser nocauteada pelos próprios pacientes.
Em 2024 apresentamos um trabalho no American College of Rheumatology, o Congresso Americano de Reumatologia, fruto da iniciação científica e TCC de Lucas Ferraz, um dos meus alunos mais antigos do CORC – nosso Curso Online de Raciocínio Clínico –, intitulado “ChatGPT Performance in Diagnosis of Rheumatological Diseases: A Comparison with Specialists’ Opinion”.
A metodologia foi relativamente simples, mas rigorosa: apresentamos ao Chat e a reumatologistas de diferentes graus de experiência (medidos pelo tempo de especialidade e de uma prática em ambiente acadêmico-prático) uma série de cinco perguntas – sobre diagnóstico diferencial, métodos diagnósticos e tratamento – acerca de cinco doenças reumatológicas (Lupus Eritematoso Sistêmico, Espondilite Anquilosante, Artrite Reumatóide, Artrite Psoriásica e Fibromialgia). Foram um total de 25 perguntas. A análise estatística mostrou que o desempenho da IA superou muitos especialistas em determinadas questões. Todavia a conclusão foi clara: a IA daquele momento se mostrou uma ferramenta potente de apoio, mas não um substituto da experiência clínica, especialmente nas questões acerca de sinais/sintomas e diagnósticos diferenciais. Aliás: quem validava as respostas eram reumatologistas representantes da “opinião dos sábios”, de que tanto fala Prof. Olavo de Carvalho ao citar Aristóteles.
Diga-se de passagem, não é a primeira vez que um reboliço do tipo “máquina x homem” ocorreu. No início dos anos 2000 o Google causou angústia ao aparecer como rival. “Dr. Google” virou sinônimo de consulta fácil; muitos temiam que ele substituiria o médico. Vide o artigo de Hesse BW: The patient, the physician, and Dr. Google. Virtual Mentor. 2012 May 1;14(5):398-402.
Mas o que aconteceu?
O Google se tornou uma ferramenta que encurtou a distância entres os médicos, capilarizou o acesso a artigos e comunidades e trouxe ao paciente a potência de verificabilidade. Ou seja, mais do que substituir o médico, o Google serviu de instrumento para refinar e potencializar aquilo que o médico já nutria. Com a IA não acredito que haverá diferença. Ainda que jovens insistam que “a IA é diferente”, até o momento é uma diferença – ainda que significativa – de capacidade, mas não de natureza. A IA é um sistema computacional que lida com rede de dados e algoritmos. Ponto. O volume de dados nascido da popularização da internet e das redes sociais nos anos 2000 e 2010 criaram a possibilidade dos defensores da IA conexionista – em contraposição aos da IA simbolista – colocarem em prática o que sonhavam. E eu só tenho a agradecer!
Ainda que o uso dialogal da IA seja diferente do recurso “geração-recuperação” do Google; ainda que a IA atual pareça julgar e de fato tenha “atenção programada”, ela continua – como todo computador – carecendo de vontade-própria. Ela continua, adivinhem: programada! Um fusca e um tesla continuam sendo carros, ainda que um ouse dispensar o motorista. Mas por óbvio ele não dispensa o comando que lhe diga para onde ir.
Qualquer instrumento exige de quem o utiliza conhecimento, habilidade e intuição para ser explorado em todas suas potências. Mas como qualquer instrumento – o estetoscópio, o bisturi, o microscópio – seu valor depende da vontade de quem o opera.
Imagine uma Ferrari. Nas minhas mãos ela será, no máximo, um carro rápido; nas mãos de Ayrton Senna, uma máquina capaz de transcender o que imaginamos ser possível. Nas mãos de um bêbado, uma arma fatal que, por sinal, seria menos fatal se fosse um fusca. O mesmo acontece com a IA. A ferramenta em si não é boa nem ruim, não é competente nem incompetente. Ela apenas potencializa aquilo que o seu operador é capaz de realizar.
Desta forma fica a questão: o que o operador da IA será capaz de realizar? Será que em sendo o operador o próprio paciente não poderemos estar diante de um bêbado dirigindo uma Ferrari? Acredito que esse risco é real, mas, assusta-me o fato de acreditar, também, que muitos médicos brasileiros, formados com as grades curriculares vigentes e a carência de rodízios em hospitais verdadeiramente acadêmicos que lhes permitam experienciar a realidade, também encontram-se na mesma categoria.
O que separa Airton Sena do motorista comum e o motorista comum de um bêbado é o que os move. Quem explora a IA leva até ela questões intuídas da realidade e ela não surge apenas do hábito ou do acúmulo de conhecimento técnico. A intuição nasce, sobretudo, do amor pelo que fazemos. E aqui é preciso esclarecer: amor não é, como se pensa romanticamente, um sentimento que "arde sem se ver". Sim, Camões está certo – mas o fogo que arde sem se ver é precisamente o que nos permite ver. O amor é um fogo que ilumina a reta razão; que nos vivifica e nos potencializa a inteligir e a agir. O amor converte nossa atenção. É, em última instância, uma mistura paradoxal de liberdade e obrigação: exige de nós a vontade de querer e, atendida essa vontade, não temos mais como não nos entregarmos a ele. A prática médica, para mim, é exatamente isso: um amor que, uma vez conhecido, se impõe como obrigação e, portanto, exige seu sacrifício.
Platão, em O Banquete, nos ensina que o amor é o motor da busca pela verdade e pela beleza. O amor é aquilo que nos arranca da mera repetição e nos impulsiona a buscar, a contemplar. O amor dobra nossos joelhos. Assim, amor, inteligência e humildade são inseparáveis: enovelam-se. Não há verdadeira inteligência sem amor, e não há amor sem humildade; sem a caridade da doação, porque é o amor que nos move a entregarmos nossa vida pelo objeto amado.
Por fim,assim como o Google não substituiu o médico, mas o médico alheio ao google é que foi substituído pelo que soube utilizá-lo,a questão central não é se a IA substituirá o médico, mas quem se deixará substituir por ela. Ainda não sei identificar todos, mas, sem dúvida, aqueles que cursam medicina sem experienciar a realidade, abdicando do amor pelo belo, pelo bom e pelo verdadeiro, esses serão descartados. Deus me livre desta mácula.
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